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Jovem de Campo Formoso é promessa nas artes plásticas baiana

Aos 21 anos, Ronald Júnior se prepara para expor no Palacete das Artes e vende seus quadros por até RS 8 mil
Algumas das pessoas retratadas nessas imagens só existem no mundo do artista plástico Ronald Borges Júnior. A maioria, porém, não só é gente de verdade como posou para ele. Frutos de fantasia ou realidade, todos esses personagens ganharam o olhar abstrato do artista de 21 anos. A fusão de retratos humanos com imagens quiméricas são a principal marca de sua obra, que começa a ser conhecida pelo público e pela crítica.
A primeira exposição assinada por Ronald, em março do ano passado, foi um acontecimento em Campo Formoso, Centro Norte da Bahia, cidade em que é radicado. Sua obra – a maior parte pinturas em tinta acrílica sobre telas - ganha duas formas de exibição. 
A primeira é um  documentário que vai abordar justamente a sua primeira exposição e será exibido na mesma cidade. A segunda será a exposição Oju (‘olhos’, em iorubá) em agosto, no Palacete das Artes, em Salvador. Hoje, seus quadros são vendidos até por R$ 8 mil.
Para produzir, Ronald simplesmente vai para a rua e pinta. Normalmente, registra gente. Transpõe para a tela as cenas e pessoas que vê, sempre com seu traço diferenciado e olhar abstrato. “O abstrato é o que  faz me divertir. É o que faço para brincar”, observa. Também faz esculturas em madeira e argila a partir de materiais que encontra na rua.
“Minha obra não tem retoques. Sempre parece que tá faltando algo. A ideia é que eu nunca fique conformado e brigue com ela. Eu fico com raiva e brigo com todas as minhas obras. Eu brinco e brigo. Aí o resultado é esse”, explica. Nascido em Salvador e “naturalizado por Campo Formoso” depois que os pais se mudaram para o interior em busca de emprego, Ronald saiu da capital em 2004, aos 7 anos.
Capoeira e futebol
Passou três anos em Capim Grosso e depois foi morar em Campo Formoso. Apaixonado por capoeira e por futebol (torcedor do Vitória e louco pelos ‘meninos da vila’ revelados pelo Santos), Ronald coloca todo esse universo nas telas. “A capoeira foi o meu primeiro contato com arte, com cultura. Depois o futebol me trouxe malícia. Está tudo aí na minha obra”, diz.
Ronald chegou a tentar jogar profissionalmente em clubes como Vitória da Conquista, Galícia e o próprio Vitória, onde chegou a participar de alguns jogos das divisões de base. Mas o lateral esquerdo frustrado achava, lá no seu íntimo, que também tinha alguma aptidão para desenhar. “Meus cadernos da escola eram todos cheios de desenho e nada de estudo”.
É nessa hora que a mãe o interrompe. “Nunca gostou de estudar. Os cadernos eram cheios de rabiscos e nada de conteúdo das aulas”. O problema era que só o próprio Ronald achava que tinha futuro como artista. “O pessoal achava tosco. Os professores também. Eu era sempre reprovado nas aulas de artes. Os desenhos tinham uma identidade só minha, por isso  ninguém entendia”.
Nessa época, aos 14 ou 15 anos, enquanto se questionava sobre as lesões que o impediam de jogar futebol, Ronald já estudava grandes mestres das artes visuais como Picasso e Salvador Dalí. “Eu via que os caras faziam algo diferente e queria fazer algo diferente também”. Em determinado momento, chegou à conclusão de que seu futuro estava nas artes plásticas.
Choque de realidade
Isso aconteceu quando visitou pela primeira vez o Palacete das Artes, mesmo local que vai expor daqui a alguns meses. “Um dia, a gente tava em Salvador e meu pai disse: ‘Hoje a gente não vai pro cinema. Vamos dar uma volta para ver o que tem nos museus’. Pronto! Aquele passeio mudou a minha vida”.
Ali, conheceu a professora Margareth Abreu, para quem mostrou seu trabalho. “Ela foi sincera: ‘Olha, esse trabalho aqui não entra em um museu, nunca!”. Na verdade, se tratou de uma crítica construtiva. “Me deu um choque de realidade”. Ela aconselhou Ronald a estudar mais. Assim ele fez. “Eu ia muito na linha do expressionismo abstrato, que desconstruía os desenhos bonitinhos. Ia muito na linha do Basquiat (Jean-Michel Basquiat, artista americano). Mas hoje me abri para outras possibilidades”, destaca.
Para os artistas baianos, por exemplo. “Eu ficava nessa onda de estudar o povo de fora, mas não conhecia Mário Cravo Júnior, Juarez Paraíso, Mestre Didi, Carybé. E até mesmo da fotografia, como Pierre Verger, e da literatura, como Jorge Amado. Todos esses estavam perto de mim. Foram eles que me deram os caminhos para encontrar uma identidade”, admite.
Mas, qual essa identidade? Também fotógrafo e documentarista, ele descobriu que seu trabalho como artista seria registrar as pessoas. Fazer retratos humanos. “Eu gosto de registrar o povo. Dar visibilidade a quem não tem visibilidade”, define-se. Ele faz isso brincando com o abstrato. Os personagens estão sempre aparentemente tristes, os olhos fixos.
Normalmente, são pessoas que posam para seus quadros. Isso quando não são fruto da imaginação. “Quando eles são reais, registro da forma que eles posam. Não sei por que sempre estão tristes. Deve ser porque ali eles sabem que têm a oportunidade de demonstrar um olhar questionador de suas realidades, apesar de serem pessoas extremamente alegres no dia a dia”.
Seu ateliê é em Campo Formoso. Mas um pequeno apartamento vazio da família, no bairro do Imbuí, está servindo de base para trabalhos em Salvador. A exposição na capital não deve ter quase nada do material que fez em Campo Formoso. “Para Campo Formoso fiz algo mais lúdico. Mas penso que para Salvador preciso fazer algo mais concreto”, acredita.
Boa parte das obras que fez até hoje é inspirada no povo do nordeste da Bahia. Agora, a inspiração será a própria Salvador. Por isso, quer vivenciá-la. Mas vai tentar extrair um olhar incomum da capital. “Os artistas todos, os fotógrafos, principalmente, só querem retratar lugares como a Feira de São Joaquim, por exemplo. Pretendo ir em lugares bem diferentes dos usuais para buscar essas pessoas”, afirma. “Vai ter de tudo na expo: arte visual, fotografia, pintura, instalação”, antecipa.
Ronald transpira arte. Desde o gosto pela capoeira e futebol até os cordéis que a avó compunha em casa e os netos ajudavam a declamar. “Descobri que tudo isso teve um grande poder agora na minha vida”. Sua ambição no mundo artístico é grande. Ele pensa em encampar um grande movimento cultural na Bahia, com poder semelhante aos dos pós-modernistas que mudaram a história da arte brasileira e transformaram a imagem da Bahia mundo afora.
Ronald quer reunir uma turma de artistas de diversas áreas para terem a mesma força dos que deram rumo a sua identidade, como Mário Cravo Júnior, Carybé, Pierre Verger e Jorge Amado. “A Bahia precisa de um outro movimento daquele nível. Gente para fazer isso tem. O negócio é rolar uma conexão entre poetas, pintores, escritores. Uma ligação de amizade mesmo, como aconteceu com esses pós-modernistas”, acredita Ronald.“O engraçado é que nesse meio tem dois gringos. Eles tiveram que vir para cá mostrar o quanto a Bahia era inspiradora artisticamente falando”.
Ronald acredita que o lado comercial tem comprometido a arte da Bahia. “O artista tem que estar em total conexão com a arte de se manifestar. Quando você faz algumas gravuras, por exemplo, e vende elas por um preço, tudo bem. Mas, a partir daquilo, se você resolve fazer cinquenta gravuras em série só porque aquelas venderam bem, aí sua arte fica comprometida”. Ronald diz que muitos artistas que costumam expor nas ruas de Salvador estacionam a sua produção por isso. “Não é todo mundo que é um Mário Cravo Júnior que produz visceralmente até o último dia de sua vida”.
Alexandre Lyrio(Correio 24 horas)

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